26 de jul. de 2012

O Oposto da Solidão

Alguns meses atrás, a estudante americana Marina Keegan escreveu o texto adaptado a seguir para uma edição especial de um jornal estudantil, distribuído durante os exercícios de início da Turma de 2012 na Universidade de Yale. Keegan faleceu (vítima de um acidente de carro) dias depois. A redação vem ganhado a rede devido à sua mensagem, que reflete a experiência e o sentimento de muitos jovens ao redor do mundo. Confira:

Não existe uma palavra para o oposto de solidão, mas se existisse, diria que é isso que quero da vida. Seria a definição do que sou grata de ter encontrado em Yale, e o que tenho medo de perder quando acordarmos amanhã e formos embora deste lugar.

Não é bem “amor” ou “comunidade”... É apenas esse sentimento de que há pessoas - várias pessoas - que estão nessa juntas. Que estão em seu time. Mesmo quando a conta está paga e você continua à mesa ou quando são quatro da manhã e ninguém vai dormir. Aquela noite com o violão. Aquela noite que mal lembramos. Aquela vez que fizemos, fomos, vimos, sorrimos, sentimos.

Yale é cheia de pequenas comunidades que colocamos entre nós mesmos. Grupos de música acústica, times esportivos, casas, sociedades, clubes. Pequenos grupos que nos fazem sentir amados, seguros e parte de algo, mesmo estando perambulando à noite sozinhos no computador – desacompanhados, cansados, acordados. Não teremos isso ano que vem. Não viveremos no mesmo prédio com os nossos amigos. Não teremos mais inúmeras conferências via sms.

Isso me assusta. Mais do que a jornada pelo emprego certo, a cidade certa ou o marido certo – tenho medo de perder esta teia que nos une. Esse elusivo, indefinível oposto de solidão. Esse sentimento que sinto agora.

Mas deixe-nos colocar algo bem claro: os melhores anos da nossa vida não passaram ainda. Eles são parte de nós e estão prontos para se repetirem enquanto crescemos e nos mudamos para Nova Iorque, ou longe de Nova Iorque e querendo ou não viver na Grande Maçã. Pretendo festejar do mesmo jeito quando tiver 30 anos. Planejo me divertir quando envelhecer. Qualquer noção dos MELHORES anos vem dos clichês “se eu tivesse escolhido aquilo”, “gostaria de ter feito isso” etc.

Claro que há coisas que gostaríamos de ter feito: nossa lição de casa, namorar aquele garoto do final do corredor. Somos nossos próprios críticos pesados e é fácil de nós mesmos nos colocarmos pra baixo. Dormir tarde demais. Procrastinar. Cortar os cantos. Olhei mais de uma vez para o meu eu do colegial e pensei: Como consegui fazer tudo isso? Como trabalhei tanto? Nossas inseguranças particulares nos seguem e sempre nos seguirão.

Mas aí, somos todos assim. Ninguém dorme e acorda onde sempre quis. Ninguém fez todas as lições de casa (tirando aqueles malucos que ganham os prêmios). Nós temos esses padrões difíceis de ajustar e provavelmente nunca viveremos nossa perfeita fantasia do futuro. Mas sinto como se tudo estivesse indo bem.

Somos tão jovens. Somos tão jovens. Temos vinte e dois anos. Temos bastante tempo. Existe um sentimento que às vezes vem até mim, e rasteja entre nosso consciente coletivo enquanto nos deitamos sozinhos após uma festa, ou organizando os livros quando desistimos de quebrar a cabeça e decidimos tomar um ar livre – de que isso é de alguma forma tarde demais. De que os outros estão bem à nossa frente. Mais preparados, mais especializados. No caminho certo para salvar o mundo de alguma forma: criando, inventando ou aprimorando. De que é tarde demais para COMEÇAR um começo e de que devemos nos contentar com o contínuo sendo o nosso começo.

Quando viemos para Yale, havia esse sentimento de possibilidade. Essa imensa e indefinível energia potencial – e é fácil sentir que isso se foi. Nunca tivemos de fazer escolhas, e agora temos. Alguns de nós focamos em nós mesmos. Alguns de nós sabemos exatamente o que queremos e em que caminho conseguir; já freqüentando escolas de medicina, trabalhando na ONG perfeita, realizando pesquisas... Se você for assim, te digo duas coisas: meus parabéns e você é uma droga.

A maior parte de nós, no entanto, está perdida neste mar de artes liberais. Estamos incertos de qual estrada estamos e não sabemos se esse é o caminho certo. “Se ao menos tivesse feito mestrado em biologia”… “Se ao menos tivesse me envolvido no jornal do campus quando caloura”... “Se ao menos tivesse me inscrito para isso ou aquilo”…

Devemos lembrar que ainda podemos fazer tudo. Podemos mudar nossa mente, começar de novo, fazer um bacharelado ou tentar escrever alguma coisa pela primeira vez. Isso de que é tarde demais é uma ideia meio cômica. É uma grande piada. Estamos apenas concluindo uma graduação, somos tão jovens... Não podemos, não DEVEMOS perder esse sentido de possibilidade porque no fim, é tudo o que temos.

No meio da noite de inverno em uma sexta-feira, em meu primeiro ano, me sentia atordoada e confusa quando recebi uma ligação dos meus amigos, me convidando para juntar-se à eles na EST EST EST*. Mesmo atordoada e confusa, segui até o salão SSS** (provavelmente o lugar mais distante do campus). Surpreendentemente, apenas questionei porque meus amigos estavam festejando no salão administrativo de Yale quando cheguei até aquela porta. É claro, não estavam. Mas estava frio e meu cartão de estudante funcionou de alguma forma, então entrei no SSS e peguei o telefone. Estava quieto, a velha madeira rangendo, a neve estava quase invisível do lado de fora da vidraça manchada. E me sentei, olhei pra cima. Vislumbrei o salão gigante onde eu estava. Aquele lugar, onde várias pessoas se sentaram antes de mim. E sozinha, à noite, no meio de uma tempestade imensa em New Haven, me senti incrivelmente segura.

Não existe uma palavra para o oposto de solidão, mas se existisse, diria que é assim que me sinto em Yale. Assim como me sinto agora. Aqui. Com todos vocês. Apaixonada, impressionada, humilhada, assustada. E não podemos perder isso.

Estamos juntos nessa, 2012. Vamos fazer algo ancontecer neste mundo.

* EST EST EST: pizzaria localizada no campus de Yale.

**SSS: Salão Sheffield-Sterling-Strathcona, localizado também no campus da universidade.

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